24 March 2017

"Há poucos dias, demos pela vinda do pós-humano, quando lemos a notícia de que se realizou com sucesso a primeira implantação, no nosso país, de um coração artificial. Poucos dias depois dessa transformação parcial de um indivíduo humano em cyborg, no Hospital de Santa Maria, pudemos ler, num artigo publicado neste jornal, assinado por Hugo Torres, que 'o próximo estado evolutivo dos computadores pode precisar de ADN'. Informava o autor do artigo que vêm aí os computadores quânticos. Os computadores biologizados e o corpo humano computadorizado: eis a prodigiosa reversibilidade que até agora só os utopistas e futurólogos se tinham entretido a imaginar, quando os computadores, mais agarrados à terra do que à cloud, eram ainda máquinas colossais que não cabiam em nenhum escritório. Mas não parece que nós, ainda tão afeiçoados a um humanismo tradicional e aos seus preceitos morais, estéticos e educativos, estejamos preparados para uma antropologia do artificial, capaz de retirar as devidas consequências de uma versão do corpo humano em que os órgão biológicos são substituídos por peças nanorobóticas. Ainda achamos delirante que uma companhia tenha nomeado um computador para um dos seus órgãos directivos (conta o escritor belga Paul Jorion num livro de 2016, intitulado Le dernier qui s’en va éteint la lumière. Essai sur l’extinction de l’ humanité)" (AG)
Michael Chapman - "That Time Of Night"

A (invejosa) investida calvinista prossegue: copos, mulheres e, agora... tabaco! (mas, por que raio, haveríamos de morrer cheios de saúde?...)





Gajas + gajos + copos + tabaco
Laura Marling - "Wild Fire"

23 March 2017


"Diz Debord: 'num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso' e o espectador alienado é assim o produto ideal desta sociedade pois 'quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo (...) Quando ser absolutamente moderno se tornou uma lei especial proclamada pelo tirano, aquilo que o honesto escravo acima de tudo receia é que possam suspeitar de passadista" (aqui + Guy Debord e a Revolução de Abril)
não restavam dúvidas que The Great Fatima Swindle era, de facto, uma Great, Great Swindle; mas, mesmo assim, o santo Chiquinho, CEO da Vaticano S.A., fez questão de promover todos os protagonistas ao mais elevado nível da multinacional

Saloios trombudos mas iluminadíssimos pela fezada
Hurray For The Riff Raff - "Pa'lante"


Europeu do Sul honorário:


"I spent a lot of money on booze, birds and fast cars. The rest I just squandered" (George Best)

Quem não é Europeu do Sul
(honorário ou não):

Homens homossexuais (podem gastar dinheiro em copos mas não em mulheres);
 
Homens homossexuais abstémios (não gastam dinheiro em copos nem em mulheres);
 
Homens heterossexuais abstémios (podem gastar dinheiro em mulheres mas não em copos);
 
Mulheres homossexuais abstémias (podem gastar dinheiro em mulheres mas não em copos);
 
Mulheres heterossexuais (podem gastar dinheiro em copos mas não em mulheres);
 
Mulheres heterossexuais abstémias (não gastam dinheiro em copos nem em mulheres).

21 March 2017

PA’LANTE!


Stephin Merritt não terá mais razões para se inquietar. Porque, como que em resposta ao que canta em "They’re Killing Children Over There" (de 50 Song Memoir) – “Now that everyone is fat and complacent, I haven't heard a protest in years” –, a música popular norte-americana acaba de gerar o primeiro grande álbum pós-Trump de canções explicitamente políticas. Dirijam-se, então, os aplausos para Alynda Segarra (ou, se preferirem o "nom de plume", Hurray For The Riff Raff), "singer-songwriter" do South Bronx novaiorquino, de ascendência portoriquenha, que, aos 17 anos, na ressaca de uma adolescência punk no Lower East Side, sonhou ser Woody Guthrie: em périplo pelo país (clandestina a bordo de comboios de mercadorias), estacionou em New Orleans onde se embriagou de folk e blues e alinhavou os primeiros registos de atmosfera genericamente “americana”. De regresso a Nova Iorque, mergulhou numa expedição de descoberta interior da identidade e das origens que, 13 anos após a fuga da Grande Maçã, a conduziu, agora, a gravar The Navigator.



O momento eureka, contudo, ocorreu ao aperceber-se que Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, de Bowie, lhe oferecia de bandeja o esquema narrativo e conceptual de que andava à procura: o/a "alien" seria, desta vez, o seu alter-ego ficcional, Navita (“Uma versão BD de mim com 17 anos”), criatura entre-culturas e – sufocada pela distopia urbana – combatente contra a pobreza, a gentrificação dos "barrios" e a colonização cultural. Evocando (e invocando) tanto o “dirty realism” do Lou Reed de New York quanto Laura Nyro, a Patti Smith inicial, os ritmos da "bomba" e "plena" afro-caribenhas, e heróis da diáspora de Porto Rico como Julia de Burgos, Pedro Pietri e Sylvia Rivera, a imprecação é feroz (“First they stole our language, then they stole our names, then they stole the things that brought us fame, and they stole our neighbors, and they stole our streets”), os alvos são claros (“Now all the politicians they just squawk their mouths, they said, ‘We’ll build a wall to keep them out’, and all the poets were dying of a silence disease, so it happened quickly and with much ease”) e – em "Pa’lante" (“Em frente”), alusão ao jornal dos Young Lords, irmãos de armas hispânicos dos Black Panthers – o programa não poderia ser mais preciso: “Do your best, but fuck the rest, be something!”.
Dois coelhos de uma só cajadada

Eu também gostava muito de ver o túmulo do Robin Hood, dos Três Mosqueteiros, do Rato Mickey e de outras personagens de ficção (e desejo sinceramente que o lugar do fim da fábula tenha tanta animação quanto o do início)

O Presidente do Eurogel no Cabelo reconhece a superior qualidade do estilo de vida mediterrânico

19 March 2017

Material de estudo para os "dates católicos" (extraordinário site descoberto por cortesia deste gestor)

Chuck Berry & Keith Richards - "Oh Carol" (ver também aqui)
STREET ART, GRAFFITI & ETC (CLXXXII)

Salamanca, Espanha, 2017





... assim?...

Stephin Merritt: "101 Two-Letter Words"


Chuck Berry (1926-2017)

17 March 2017

Hurray For The Riff Raff - "Hungry Ghost"


Alerta aos fiéis da Igreja de
St. Ziggy Freud de Viena


Na blogocoisa, aparentemente, existe uma lei não escrita mas muito activa segundo a qual, sempre que o nome de St. Ziggy é invocado "em vão", nas caixas de comentários, a guarda suiça do templo precipita-se, irada, sobre os profanadores. Como, facilmente, poderá comprovar-se, por exemplo, aqui e, em particular, aqui, aqui, aqui e aqui. A defesa da ciência contra o karambismo é, cada vez mais, uma causa urgente mas a pachorra tem limites. Por outras palavras, de agora em diante, sempre que o santinho for ofendido, podem protestar à vontade mas só muito excepcionalmente terão resposta. Bastará virem até este post e, como comentário, escrever apenas "St. Ziggy Freud de Viena, orai por nós". Que o "id" vos abençoe.
Será, portanto, mais outro motivo para investigar de onde veio o guito porque, como se sabe, ele é apenas um pobrezinho de cristo

16 March 2017

Jesca Hoop - "D.N.R."

(DNR)


"Whether we like to admit it or not, the history of the U.S. is in great degree a history of genocide and racist terror. As Roxanne Dunbar-Ortiz has demonstrated in An Indigenous Peoples’ History of the United States, the phrase 'Manifest Destiny' — which we generally associate with the second half of the 19th century — accurately describes the nation’s ethos since well before its founding. The idea that the entire continent belonged by right of  'Providence' to a highly specific group of European settlers is what we often hear spoken of now of as 'white nationalism', an ideology that has been as violent and bloody as certain other nationalisms, and in many ways much more so (...)" (daqui)
16 - Em antecipação do formidável festival
da superstição
   
The Great Fatima Swindle
(patrocinado pelo CEO da Vaticano S.A. e 
acolitado por meliantes vários) 

eis os links para os artigos completos antes referidos aqui, aqui, aqui, aqui e aqui:

 
Hurray for the Riff Raff - "Living in the City"

Que merda fez hoje o Trampas? (VI)

 
... e não vale a pena perder um segundo a explicar-lhe que, caso o Wilders tivesse ganhado as eleições, não governaria na mesma (coisa, aliás, nada original nem bizarra)

14 March 2017

Jefferson Airplane - Surrealistic Pillow (1967)



(aos 0'32")
PELE


Vamos conhecendo Laura Marling, literalmente, pela pele. Ou pelo que ela vai inscrevendo na pele. Em 2013, por altura da publicação de Once I Was An Eagle, ficámos a saber que, no pulso direito, tem tatuado o lema dos baronetes de Marling – cujo primeiro titular foi, desde 1882, Sir Samuel Marling, industrial, filantropo e político liberal –, nulli praeda sumus (“não somos presa de ninguém”). Agora, no momento em que surge Semper Femina, descobrimos que, aos 21 anos, tatuou discretamente o título do álbum (citação deliberada e ironicamente truncada da Eneida, de Virgílio: varium et mutabile semper femina (”a mulher sempre vária e volúvel”) na elegantíssima coxa esquerda. E, acessoriamente, o brasão da casa de Marling no outro pulso. Não é caso para alarme: ela não é, de todo, uma versão contemporânea de O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Muito mais facilmente esta autoconfessada “mistura estranha de completa neurótica e espantosa procrastinadora nada perfeccionista”, loira e pálida, encarnaria uma qualquer heroína de Jane Austen. Porém, capaz de, ao mesmo tempo, afirmar: “Não é possível conceber tragédias a partir das minhas personagens. A nossa cultura adora tragédias femininas. Por isso, agora, concentro-me em reescrever essa ideia da mulher trágica”.  


Semper Femina é, então, uma detalhada e preciosa trajectória quase folk – isto é, mais próxima do espírito “de câmara” de Once I Was An Eagle do que do anterior Short Movie –, entre evocações de L’Origine du Monde, de Courbet (“A origem do mundo ser aquela imagem muito gráfica do sexo de uma mulher sempre me pareceu uma coisa poderosíssima”), da Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, de Leonard Cohen (“Um dos raros românticos realistas, um género a que fui buscar inspiração para a minha ainda curta vida”), da surrealista Leonora Carrington, ou – nos dois videoclips por ela dirigidos, para "Soothing" e "Next Time" –, de Roy Andersson, realizador de Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir Sobre a Existência, único filme autenticamente genial que (até agora) o século XXI produziu. Não temamos perder-nos nela. É a própria Laura Marling que o autoriza: “O meu desejo de ser mal entendida é permanente. Posso parecer uma hippie tresloucada mas acredito que a escrita de canções é uma arte obscura, uma forma de encantamento. É impossível explicá-la”.
A JOKE A DAY KEEPS THE DOCTOR AWAY (LVI)

Era mais cortar-lhe os tintins, não era?

A República da Irlanda, praticamente uma colónia da Vaticano S.A., leva tão a sério a lei do colonizador que nem o Norte escapa

12 March 2017


Que merda fez hoje o Trampas? (V)



Laura Marling - "Next Time"


Mas, ó Capelão Magistral... "onde estiver o espírito do líder histórico dos comunistas portugueses"???!!!... Pelamordedeus!... não se acanhe de dizer que, evidentemente, o endemoninhado homem está a esturricar nas labaredas do inferno (na companhia de muitos outros infiéis que a santíssima inquisição - louvada seja!... - para lá mandou)!!!

11 March 2017

"(...) O programa está cá, falta apenas o salto populista. O abandono a que foram deixados os trabalhadores, os pequenos empresários, os operários, uma massa de gente a quem tiraram o futuro e amachucaram o presente geram ressentimento que, como a água, segue o caminho mais fácil. Ele encontra-se no olhar para a casa limpa e composta que espera os refugiados e não precisa dos mastins da extrema-direita para lhe indicar os alvos. Eles sabem que o CDS, o PSD, o PS os abandonaram à sua sorte, estão-se literalmente borrifando para as 'causas fracturantes' do Bloco de Esquerda, e a 'linguagem de pau' do PCP não os mobiliza. Eles esperam no seu fel – até um dia" (JPP)
Hurray for the Riff Raff - "The Body Electric"



"Reversal Of The Muse began as conversations between friends about female creativity. In reversing the muse it became an experiment. As a small part of the global conversation about women in the arts, it became an obsession. It occurred to me that in 10 years of making records I had only come across two female engineers working in studios. Starting from my experience of being a woman I began to ask myself what difference it might have made had I had more women around, if any. I wanted to know why progress has been so slow in this area and what effect it would have on music"
(Mar 03 2017 – Apr 28 2017) 
Exhibition & EventsPro Arts


"Situationist Guy Debord’s Society of the Spectacle predicted the Trump Age. Many of the works in the show critique authoritarian and capitalist politics. Others demonstrate the Situationist technique of détournement (XV), in print, sound, media, and performance. The New Situationists also include artists whose work challenge the primacy of the art object, and will engage in social projects, creating 'new situations' in the public sphere of Frank H. Ogawa Plaza, also known as Oscar Grant Plaza, site of much civic protest as well the operations of the City of Oakland’s government. The exhibition features work from the 1970s to the present. Our hope is that a brief history of past Bay Area provocations, actions and interventions will incite a new generation of artists, who will look into the past in attempt to dismantle, fight, and subvert the present. Looking back is looking forward" (via SB)

09 March 2017

A VIDA EM DUAS HORAS E MEIA 




50 canções. Uma por (e sobre) cada ano de vida, iniciada em 1965, até ao meio século comemorado a 19 de Fevereiro de há dois anos, mas só agora amplamente celebrado através da publicação de 50 Song Memoir. Foi o desafio autobiográfico lançado pelo presidente da Nonesuch Records a Stephin Merritt – ele dos Magnetic Fields, Gothic Archies, Future Bible Heroes e 6ths e “a pessoa menos autobiográfica que alguma vez conhecerão” – que, surpreendentemente, o aceitou. E, retomando a veia das obras de grande fôlego, ultrapassou o inesgotável triplo de 1999, 69 Love Songs, convertendo as suas memórias num portentoso quíntuplo álbum. 

    Decidiu-se a deitar mãos a este projecto porque o presidente da Nonesuch, há dois anos, lho sugeriu como forma de comemorar o seu 50º aniversário. Por iniciativa sua, nunca o faria? 
    Não, se não me tivessem desafiado para o fazer nunca me teria passado pela cabeça a ideia de escrever 50 canções acerca de mim. 

    No entanto, desde 69 Love Songs, i, Songs From A-Z ou o livro que publicou com Roz Chast, 101 Two-Letter Words...
    ...  A-Z foi uma forma de estruturar um concerto, 26 canções, uma para cada letra do alfabeto. Um espectáculo, não um álbum. 

    Mas essa forma de organização temática/conceptual de discos, concertos e livros parece ser algo muito do seu agrado... 
    Não é do agrado de toda a gente?... Se calhar, então, vou chamar ao próximo álbum Another Record... (risos) No fundo, é como o Frank Sinatra intitular um álbum Songs For Swingin' Lovers! Ele tinha uma banda de swing e gravou um álbum de canções de amor. Daí ter-lhe chamado Songs For Swingin' Lovers!, nada de muito complicado. De um modo geral, gosto que o título descreva aquilo que o álbum contém. Por exemplo, o título Distortion era uma espécie de alerta para que, se não gostassem de música com distorção, não iriam apreciar aquele disco. Ninguém teria motivo para reclamar: estava bem visível na capa. 



    50 Song Memoir foi-lhe mais fácil ou mais difícil de criar do que 69 Love Songs? Sempre foram menos 19 canções... 
    Na verdade, foi mais difícil porque tive de me assegurar de que, sendo autobiográfico, tudo aquilo que dizia era verdade. O que torna muito mais complicado encontrar as rimas... 

    Mas também já confessou que “uma autobiografia não tem de ser sinónímo de verdade”... 
    Se estivesse num tribunal e tivesse de contar a história da minha vida em duas horas e meia seria muito diferente daquela que conto através das canções. Seriam ambas verdadeiras mas editadas de modo completamente diferente. Num tribunal, nunca falaria da minha vida amorosa (a não ser que fosse obrigado a fazê-lo) mas, num álbum, isso pode perfeitamente constar da minha biografia. 

    Quer isso dizer que, quando, em "They’re Killing Children Over There", conta que foi a um concerto dos Jefferson Airplane, em 1970, devemos encarar isso como um ‘facto alternativo’, uma liberdade poética ou aconteceu mesmo? Nessa altura, tinha cinco anos... 
    É verdade, fui ver os Jefferson Airplane com a minha mãe! Ela tinha o Surrealistic Pillow [segundo álbum dos Jefferson Airplane de 1967] que eu adorava. Por isso, aos cinco anos, eu já era um fã da banda quando fomos vê-los. 

    Proavelmente, eles nem sonhavam que tinham fãs com cinco anos...
    Havia imensas crianças em Woodstock!... Mas não foi em Woodstock que os vimos. Tentámos ir a Woodstock mas foi impossível, o trânsito estava um pesadelo! Conto isso, aliás, na canção antes dessa, "Judy Garland". 


    Nos espectáculos em que apresentou este álbum, surge como uma personagem no interior do cenário criado por José Zayas – uma espécie de casa de bonecas recheada de objectos fortemente simbólicos que foi coleccionando ao longo dos anos – que vai, canção a canção, ano a ano, contando a história da sua vida... 
    Claro que me vejo como uma personagem. É uma versão editada de mim próprio que apresento. Mas não é mais personagem do que aquela que poderia surgir numa festa onde fosse explicar quem sou, numa versão que as pessoas poderiam reconhecer. Quando, em 2010, fizeram um documentário sobre mim, Strange Powers, fiquei com a ideia de que mostrava uma visão extremamente selectiva da minha vida, de acordo com o ponto de vista das realizadoras [Kerthy Fix e Gail O’Hara]. Não mencionaram o facto de eu ter escrito três musicais durante o período em que filmavam porque não tinham sido autorizadas a filmar os actores. Por isso, essa parte da minha vida não surgiu no documentário. Na altura, isso deixou-me um bocadinho irritado mas, agora, compreendo que qualquer biografia será sempre, inevitavelmente, selectiva, em função do meio que é utilizado e da conveniência do biógrafo. 

    Mesmo quando se trata de uma autobiografia? 
    Sim. No documentário, há muitas sequências de outras pessoas que fazem depoimentos acerca de mim. Numa autobiografia – pelo menos, em todas as que li –, não é habitual ocorrer ao autor a ideia de pedir testemunhos sobre si mesmo. E, neste álbum, eu também não entrevistei ninguém para falar sobre mim. 

    É verdade que, para este disco, foi repescar canções com mais de 30 anos e outras que escreveu quando ainda era adolescente? 
    Sim, algumas. Cerca de metade de "At The Pyramid", por exemplo, fui recuperar a uma gravação dos anos 80 que descobri. Ou "Ethan Frome" que data da época que descreve [1989]. Assim de repente, são aquelas de que me recordo. 



    Pode ser só ainda uma primeira impressão mas, ao escutar 50 Song Memoir, tive a sensação de que tinha convocado, em simultâneo, para a gravação todos os seus alter-egos: Magnetic Fields, Gothic Archies, Future Bible Heroes, 6ths... 
    Não é que, conscientemente, eu tenho pretendido fazer isso mas, se calhar, quem sabe?... Terei, de certeza, de voltar a escutá-lo com essa ideia presente para poder chegar a uma opinião mais segura.

    Voltando ainda a "They’re Killing Children", a determinado passo diz: “Now that everyone is fat and complacent, I haven't heard a protest in years”. Quer parecer-lhe que, agora, após a eleição para a presidência do Agent Orange, tudo continuará a ser assim? 
    O que pretendi dizer é que há muitos anos não se escutam canções de protesto. Acerca das guerras em que nos envolvemos. Na semana passada, um raide aéreo no Yemen aprovado por Trump matou uma miúda de 8 anos cujo irmão de 16 anos tinha também sido morto, meses antes, noutro raide aprovado por Obama. Continuam a ser mortas crianças naquela guerra e não estou à espera que deixem de o fazer tão cedo. Mas já não há uns Jefferson Airplane para escreverem canções sobre isso. Existe protesto no hip hop mas nunca me dei conta que falassem sobre vítimas infantis de raides aéreos.

08 March 2017

A falta que faz a velha bruxa para nos informar de quem o bom deus preferiria para governar o pedaço...
 
Mas não alugamos todos o corpo, por curta, média ou longa duração, transformando-o em mercadoria transaccionável? Trate-se das pernas, braços, mãos, olhos ou cabeça de um atleta/desportista profissional, modelo, actor, operário, militar, ou do cérebro de um intelectual, cientista ou artista? Ou tratar-se-á apenas, ainda e sempre, da (ela, sim) puta da moral judaico-cristã que distingue partes do corpo puras e impuras e, na associação sexo + dinheiro, identifica o mal supremo?

07 March 2017


MEIO SÉCULO

  
Stephin Merritt criou para si mesmo várias regras sagradas de trabalho. Uma – a que ele chama a “teoria ABBA” – estipula que, caso não consiga recordar-se de uma melodia que compôs, é porque, na verdade, ela não merecia ser recordada. Outra, incluída num “Formulist Manifesto”, proclama que “toda a arte aspira à condição do Top 40 bubblegum pop. Nós, formulistas, rejeitamos (com um suspiro de alívio) a iludida aspiração dos modernos à expressão individual”. Daí, decorre uma convicção: “Não preciso de inspiração. Preciso, sim, de tempo, um bloco-notas, uma caneta, e música de fundo apropriada para neutralizar a música que, inevitavelmente, tenho na cabeça”. Acessoriamente, dá-lhe jeito a noção de que “para qualquer ideia, existe, de certeza, um contexto no qual ela é uma boa ideia”. Por exemplo, gravar um álbum em que todas as canções começam por “i”, conceber uma trilogia “no synth”, afogar um disco inteiro em distorção, "à la" Jesus & Mary Chain, ou entregar-se incondicionalmente à escrita das 69 variações possíveis sobre a "love song".


Uma boa ideia foi também a sugestão do presidente da Nonesuch, que, há dois anos, por altura do 50º aniversário de Merritt, lhe propôs compor 50 canções, uma por cada ano de vida. Circunstância ideal para engendrar novas regras: num total superior a 100 instrumentos, apenas 7 poderiam ser utilizados em cada canção, o mesmo par de instrumentos só estaria autorizado a figurar num único tema e cada um deles num máximo de 7 faixas. Complicadinho? Talvez, mas não seria isso que impediria Stephin Merritt de – via Magnetic Fields e, dir-se-ia, todos os seus heterónimos – confeccionar 50 Song Memoir, uma assombrosa e musicalmente eclética autobiografia que funciona também enquanto espelho do último meio século de História americana. E tanto nos conta que foi gerado por “barefoot beatnicks”, como revela que a sua primeira banda “made the Cramps sound orchestral, that’s an achievement I guess”, evoca Ginsberg e Stonewall, entoa hinos a Nova Iorque pós 9/11 e ao seu local de trabalho preferido (“sitting in bars and cafes, writing songs about songs and plays within plays”), destila veneno sobre o vasto clube de ex-namorados da mãe (“Na na na na, you’re dead now!”) e termina celebrando a gloriosa diversidade do sexo: “Nothing’s too strange for somebody’s palate, some spank the maid, and some wank the valet”.
... ou, por outras palavras, socialistas, solidários, inclusivos e coiso, mas, se fizerem a caridadezinha de nos dar boleia na locomotiva, quero é que se lixem os outros
Não há outra forma de morrer senão "de causas naturais"... (para não falar da famigerada "paragem cárdio-respiratória")
Jane Birkin - Mother of all Babes

06 March 2017


14 - Em antecipação do formidável festival
da superstição
   
The Great Fatima Swindle
(patrocinado pelo CEO da Vaticano S.A. e 
acolitado por meliantes vários) 


"Cohen was a poet of extraordinary elegance and class, one of the rare realist-romantics, a genre from which I have drawn a (so far) short life and career’s worth of inspiration. His lyrical world is so vivid, melancholy, solitary but not, crucially, isolated. Modern story telling, grown up romantic turmoil. In my mind he was always in his late thirties, always wearing a suit, always looking on gently to the world wondering how to move through it, always pondering his last love affair, always making space in his heart for the next" (Laura Marling)

Vede e ouvi, ó ímpios, como a cristã-nova, Zita, ecoando a santíssima sabedoria do Capelão Magistral (neo-camarada Opus), também ela divinamente inspirada pela Great Fatima Swindle, baralha as datas!!!